Cuidado demais, sucesso de menos

Passei cerca de dois anos observando pessoas jogando Sudoku. Não como passatempo, nem como exercício mental genérico — mentira, foi sim, mas botei a culpa no estudo científico aplicado — e sim como um ambiente controlado para observar como as pessoas decidem, travam, avançam ou desistem quando estão diante de um problema lógico simples, com regras claras e sem espaço para sorte. O Sudoku é cruel nesse sentido, porque depois que o jogo começa, tudo depende exclusivamente de decisão. Não existe acaso, não existe ajuda externa, não existe justificativa confortável. Ou você decide bem, ou você se limita.

Todos os jogadores jogavam do mesmo jeito, no mesmo nível. A única diferença é que metade jogava com limite de três erros. Se errasse três vezes, o jogo encerrava. A outra metade jogava sem limite algum. Não importava o quanto errasse, o jogo continuava.

O futuro do resultado parecia óbvio. Quem não tinha limite de erros erraria mais, afinal, não havia compromisso com o resultado. Já quem tinha limite jogaria com mais cautela para conseguir concluir o jogo.

Certo, no começo, foi exatamente isso que aconteceu. Mas foi o que veio depois que deixou o resultado surpreendente.

Conforme os jogadores foram se acostumando e melhorando suas técnicas, os que não tinham limite de erros começaram a errar cada vez menos. Já os que tinham limite continuavam errando praticamente na mesma quantidade, perdendo alguns jogos, inclusive. A capacidade cognitiva das pessoas não se alterou com o tempo. O que mudou foi a relação delas com o erro.

O fator determinante não era capacidade. Era medo. Não aquele medo explícito, dramático, que faz alguém desistir de imediato, mas o medo silencioso, bem-educado, racionalizado, que se disfarça de cautela, prudência e “vou pensar melhor”. Era o medo de errar, e perder o jogo.

Esse medo não paralisa. Ele diminui. Ele faz a pessoa tomar decisões menores, mais lentas e mais defensivas. No jogo isso aparecia de forma clara. Gente que só avançava quando tinha certeza absoluta, gente que evitava movimentos que exigiam compromisso, gente que preferia ficar parada a correr o risco de errar uma jogada lógica. O resultado eram jogos lentos, travados, menos dinâmicos. Por conta do medo, a possibilidade do erro parecia paralisar tudo e cada decisão era tratada como arriscada, mesmo quando era correta. O efeito prático disso era paradoxal: mais erros.

Já aqueles que não tinham limite e, portanto, não tinham compromisso com a quantidade de erros, simplesmente não tinham medo. Como se arriscavam mais, terminavam jogos mais rápido, praticavam mais vezes e, consequentemente, melhoravam mais rápido. Ou seja, quem tinha menos medo arriscava mais, errava mais no início, ajustava mais e evoluía mais.

Em estatística, e em qualquer processo de medição, existe uma analogia clássica que ajuda a entender exatamente o que estava acontecendo ali: a diferença entre precisão e exatidão. Imagine dois atletas atirando em um alvo — se não quiser imaginar, olhe a imagem acima. O primeiro é constante. Todos os tiros ficam agrupados, próximos uns dos outros, mas, quase sempre longe do centro. Ele é previsível, repetível, tecnicamente estável, porém está mirando errado. 

O segundo atleta é o oposto. Os tiros estão espalhados por todo o alvo. Um ou outro até acerta o centro, mas mais por probabilidade do que por controle. Ele não tem padrão, não tem processo, não tem repetição confiável. Em termos técnicos, sofre de erro aleatório. 

A diferença é que, enquanto o primeiro é previsível e permite saber exatamente o resultado que se pode esperar dele, o segundo não é previsível. Embora erre feio em alguns momentos, em outros acerta muito bem e, ocasionalmente, chega a acertar mais do que o primeiro.

A diferença dos dois foi, o primeiro não queria errar, o segundo, não estava com medo do erro, então saía atirando pra todo lado, e acabava acertando mais.

Não que atirar para todo lado seja melhor, pois falta de clareza e direção traz resultados que não são claros, nem eficazes. Mas quando não se tem a "necessidade de ser perfeito", é mais fácil de acertar do que quando tentamos ser sempre certos.

Pessoas tecnicamente capazes, mas dominadas pelo medo, repetiam sempre o mesmo raciocínio defensivo, a mesma cautela excessiva, a mesma aversão ao erro. Eram consistentes, mas consistentemente deslocadas do melhor resultado possível. Enquanto isso, outras pessoas avançavam de forma aparentemente caótica no início, erravam mais, mas aprendiam mais rápido exatamente porque se permitiam testar, ajustar e seguir.

Temos muito medo de errar, mas errar é um processo, é um passo para o acerto futuro. Ainda assim, emocionalmente, o erro é tratado como fracasso, não como parte do aprendizado. E o fracasso, como algo inaceitável. Esse padrão não é sobre o jogo. Ele se repete fora dali, na carreira, nos negócios, no posicionamento pessoal. As pessoas não deixam de avançar porque não sabem o próximo passo. Elas deixam de avançar porque não querem lidar com a possibilidade de estarem erradas. E acabam ficando em uma zona de conforto, aonde não se erra, pois não se tenta.

Com o tempo ficou claro que quem mais avançava no jogo não era quem errava menos, mas quem aceitava errar. Eram pessoas que decidiam, observavam o efeito da decisão, corrigiam e seguiam. Enquanto isso, quem tentava se proteger do erro ficava preso, rodando dentro da própria cabeça, acumulando análises, justificativas e travas. O medo não protegia do fracasso. Ele garantia um sucesso menor.

Isso explica algo que vemos o tempo todo. Pessoas, muitas vezes sem grande capacidade técnica, ocupando espaços, conquistando resultados e chegando onde outras, tecnicamente muito mais capazes, nunca chegam. Não é porque são melhores. É porque não têm medo.

São pessoas que simplesmente se metem a fazer. Não ficam paralisadas tentando prever todos os cenários. Se der certo, deu. Se não der, virou aprendizado. E aprendizado é só mais um passo em direção ao acerto.

Benjamin Franklin resumiu isso de forma simples quando disse: “Eu não falhei no teste. Apenas descobri mil maneiras de não fazê-lo.” A vida não é um acerto isolado. É um processo de tentativas e erros. E, muitas vezes, o resultado que você espera não acontece por um motivo banal: você não arriscou. Teve medo de errar.

Qual seu medo ao errar? Ser julgado? Perder algo? Ser rejeitado?

O mais irônico é que, na maioria das vezes, mesmo errando, você não perde nada. Você só deixa de ganhar. O erro não tira algo de você. Ele apenas não entrega o acerto naquele momento. Mas esse acerto só não acontece porque você fica ali, analisando demais, tentando evitar o erro, insistindo em um erro constante que é ficar parado.

Ninguém pode te julgar por errar, pois só erra quem tenta. E se tem alguém te julgando, é porque você está falando o seu passo a passo para pessoas que não deveriam saber. Pois quem se importa e torce por você, não vai te julgar, vai te impulsionar.

Já pessoas que não te conhecem, não podem te julgar nem te rejeitar, pois elas não sabem nada de você, e mesmo assim, se esquecerão do que aconteceu em pouco tempo, só você vai lembrar do erro, elas não.

Por isso, em algum momento, é preciso parar de calcular tudo o que pode dar errado (se der errado) e começar a arriscar. Arriscar mais. Se posicionar. Começar a viver o que você quer viver, e não aquilo que você acha que deveria viver por medo de errar.

Assuma uma posição de decisão na sua vida, reposicione-se, e viva o que você quer viver de verdade.

O que você faria se não tivesse medo?

Tudo o que você quer, está do outro lado do medo.